Da intimidade de um coletivo

Regresso de Saturno 1

Por Carlos Baumgarten

Havia algo de diferente na luz daquele apartamento, cenário de tantos filmes guerrilheiros do CUAL e, por muito tempo, ponto de encontro do nosso coletivo pra discutir o presente, lembrar o passado e planejar o futuro. Não lembro se foi com Bia ou com Marcus que comentei, mas a diferença que percebi naquela luz era porque eu, até então, não tinha frequentado o apartamento que eles dividiam durante o dia. Então, a luz familiar pra mim ali era a luz da noite.

Havia algo diferente na minha visão. Esse diferente, por uma força maior, fez emergir em mim um sentimento nostálgico. Lembrei das risadas, das discussões, acaloradas ou abrandadas, dos projetos, dos anti-projetos, da sala cheia… E um dos primeiros planos que vejo na tela é o da sala vazia… A partida do “Regresso de Saturno” é bem íntima. É íntima no que diz respeito a Bia e a Marcus. É íntima pra quem integra o CUAL. E é, no mínimo curioso, falar de um filme tão íntimo que, ao mesmo tempo, faz parte de um coletivo.

Comentei com Bia e Marcus que o filme talvez batesse diferente pra quem os conhece e pra quem não os conhece. Na primeira sessão pra o público em Salvador, no Panorama do ano passado, lembro que uma amiga em comum a todos nós comentou discretamente após a sessão: “Forte”. Sim. O primeiro impacto é forte, porque não é um filme fácil pra o espectador. Mas, acredito eu, ser um filme ainda mais difícil pra realizadora e pro realizador.

Logo após  ver o primeiro corte, escrevi uma carta eletrônica pra Bia e Marcus, falando sobre o quanto o filme me tocou, principalmente por conhecer parte da história deles. E percebi que aquele sentimento nostálgico poderia vir de um egoísmo da minha parte, em querer ter de volta o que nós tínhamos, sem, talvez, compreender os diferentes momentos pelos quais estávamos passando.

Sim. “Regresso de Saturno” fala sobre Bia e Marcus, pra quem os conhece, e, pra, quem não os conhece, fala sobre a crise de um casal. E acho que, lá no fundo, também ressoa no CUAL, em nosso processo de trabalho, em nossa existência, em nossa amizade, em nossa ausência e em nossa presença… Foi ao final da projeção que enxerguei um filme que aponta caminhos, e que vivencia a melancolia, mas, diferente do que se despertou em mim, não se prende a ela.

Existem detalhes íntimos que apenas os amigos entenderão. Outros que apenas Bia e Marcus sabem do que se trata… Mas, no final das contas, há esse diálogo coletivo. O diálogo com a geração contemporânea a mais um regresso de Saturno…

Regresso de Saturno // Saturn’s Regress from Cual on Vimeo.

 

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2 Respostas para “Da intimidade de um coletivo

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