Moderno-fragmento do pensar – Um olhar para “O menino invisível”.

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O tempo é sem dúvida um elemento especial, uma característica atribuída aos acontecimentos, à realidade das coisas palpáveis, uma espécie sentença para o desabrigo das desilusões que nos cerca. O tempo é antes de tudo algo determinante, pois, ao passo que constrói, destrói com a mesma volúpia construtora. Deveria existir alguma lógica nisso? Pois bem: quando pensamos em coisas, em objetos ou em pessoas, atribuímos-lhes tempos próprios, numa certeza quase dialógica de percebermos suas temporalidades e espacialidades diante da certeza de que o tempo realmente existe como entidade dotado de sentido e materialidade. Mas o que faz o tempo realmente passar, se a nossa realidade, a realidade das coisas e dos objetos, é dominada por imperfeições e perfeições próprias da universalidade do mundo em formas, em conteúdo, em matérias? Podemos então pensar, se o mundo envelhece, assim o faz, pois as coisas, seus conteúdos e formas, também se modificam. É assim com o fabuloso mundo inanimado dos automóveis, da cidade, dos objetos publicitários, as canetas esferográficas, o mundo dos passantes das cidades, que envelhecem pois, não, que o tempo de fato passe para elas, talvez; mas porque suas formas envelhecem, ao passo que facilmente somos levados a crer que o mundo envelhece, ou nós que envelhecemos, pois não existe tempo, mais sim tempos, um tempo para a caneta, um tempo para os passantes da cidade,um tempo para os dias de chuva, um tempo para as formas longilíneas e circulares dos carros, existindo um tempo para tudo, para todos, um tempo para viver, um tempo morrer, um tempo para plantar, para colher, um tempo para ler, e outro para desaparecer.

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Apesar de existir tempo para tudo, somos sempre assaltados pela ideia de que nunca há tempo para nada. Eclesiastes não nos deixar mentir, em verdade em verdade, existe tempo para tudo nesse mundo. Se não conseguimos ver o tempo que nos acelera e nos consome constantemente, melhor que observemos o passar descaminhado de todos as outras pessoas que nos cerca. É assim que sempre somos assaltados por tempos distintos. E a vida, que em constante relação, é a vida do diálogo com objetos e pessoas distintas, seus tempos e temporalidades. Viveríamos então assaltados ante às temporalidades? Se a resposta for sim, somos sujeitos extemporâneos, melhor dizendo, temporãs, a espera do melhor verão para nos acuarmos ou fugirmos, ou sempre nos encontrarmos diante do exercício temporal de que o nossa vida está em perceber o tempo alheio, pois qualquer forma de diferença entre visibilidade e invisibilidade é a relação que temos, ou não, com as temporalidades alheias, essa de sermos constantemente assaltados pelos tempos vindouros das formas dos outros, pois é na diferença que percebemos o nosso caminhar… ou nosso descaminhar. Tornar-se visível é relacionar-se temporalmente, tornar-se invisível seria abster-se do tempo alheio, ou apenas alcançar uma dimensão das formas, ser forma… ser objeto inanimado.

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É assim no curta “O menino invisível” (2013), dirigido por Murilo Deolindo em parceria com Danilo Umbelino e Uiran Paranhos. No curta podemos perceber claramente a relação do pobre e do seu papel como esse sujeito “atípico”, um sujeito deslocado do plano da cidade, do plano das relações em que um menino de rua é um sujeito deslocado do tempo, um sujeito de posse de sua invisibilidade. No filme, a invisibilidade e a visibilidade ganham conotações quase que fabular. É interessante notar como as imagens dos quadrinhos são imagens que o menino utiliza para construir seus elementos de identificação. Outro ponto fundamental: os planos parados, constantemente estabelecidos e centrado na figura do menino que transita pela cidade. Aqui, a câmera enxerga claramente o que ninguém quer ver. Se a criança observa no cotidiano caótico da cidade um super-homem invisível para todos, constrói com o invisível a sua visibilidade. E não há nada mais trágico do que isso, tornar-se um herói invisível.

O pobre é apresentado como aquele indivíduo atravessado pelo anacronismo. Nos pós-moderno, a pobreza não é somente vista pela possibilidade de ter ou não acesso aos recursos que o mantem vivo; o pobre é o sujeito que carrega consigo um anacronismo, um deslocamento temporal, que o faz sujeito despossuído de visibilidade. Dois tempos são apresentados no personagem, o tempo cosmopolita da cidade que ferve diante das possibilidades de se fazer, e outro, o tempo dos despossuídos de imagens, da lentidão dos planos monocórdicos, da solidão e do vazio da cidade engarrafada, a cidade que somente um invisível pode contemplar. O filme parece ser, antes de tudo, uma representação anacrônica, um filme que aponta para o fato de que o tempo dos sujeitos explorados é diferente, um tempo quase que visível, e que coloca o pobre também como sujeito anacrônico. E é isso que o filme nos diz: diante de nossas visibilidades, somos também anacrônicos. Em resumo: somos invisíveis pois não coexistimos temporalmente.

Por Francisco Gabriel

Referência: “Cosmopolitismo do pobre”, Silviano Santiago.

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