Estamos Aqui

extra

Esse sou eu com dois anos de idade. Parece incrível, mas acho que lembro desse dia. Me lembro de vestir uma roupa esquisita e de ter que olhar para um homem com uma câmera. Obviamente, eu não sabia que aquilo era uma câmera. Poderia ser uma arma. Ou um sugador de almas. Lembro que o cara tentava fazer com que eu olhasse para a lente. Não sei como, mas ele conseguiu.

Sempre foi estranho ter que fazer coisas que pareciam não fazer sentido. Acho que por isso sempre tive dificuldade para trabalhar. Por causa desta foto. Agora só consigo dormir quando estou com sono. Só consigo acordar quando estou completamente descansado. Sou como o garotinho da foto, só que menos fofo. Muito menos.

Outro dia tentei escrever um texto-piada sobre um vizinho fictício, sedentário e com hábitos noturnos, que morria do coração. Era uma tentativa de me provocar de alguma maneira. No mesmo momento em que escrevia, um colega cineasta (2 anos mais novo que eu), morria do coração. O nome dele era Emerson Santos.

Não terminei o texto. Mas começava assim:

Como Netflix matou o meu vizinho

 Esta é uma história real.

Joder era meu vizinho. Vizinho de porta. E ele tinha os mesmos hábitos noturnos que eu. Trabalhávamos sempre de madrugada e, no fim das tardes, sempre nos esbarrávamos pela escada com caras de sono.

Mas Joder morreu ontem. Sim. Foi terrível. Tentei socorre-lo, mas não havia mais nada a se fazer. Ele ainda conseguiu abrir a porta e gritar por socorro, mas caiu ali mesmo.

Joder não saia do apartamento há 3 semanas. Enquanto estava acordado, passava 14 horas sentado. Acho que enfartou.

Enquanto os médicos tentavam ressuscitá-lo, roubei o seu diário. Precisava saber se teria o mesmo destino que ele. Bebo muito, sou sedentário e já não saio de casa há 5 dias. E não pretendo sair por mais um tempo. Joder me indicou o Netflix.

Quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Aqui estou, 4h29 da manhã, procrastinando mais um trabalho e assistindo um cachorro comer iogurte da colher. Existe uma maneira correta de se viver. E eu não sei qual é.

Você é um garotinho de 2 anos. Sua única preocupação é olhar para uma câmera fotográfica.

Você tem 27 anos. Você está com medo de morrer do coração.

Ontem eu estava testando o scanner e resolvi digitalizar algumas fotos. Acho que vi todas as fotos da minha infância. Hoje vi “Boyhood”, o filme que foi rodado durante 12 anos com os mesmos atores e com um protagonista que vai dos 6 aos 18 anos. Estranho como essas coincidências acontecem. Depois que saí da sessão, fiquei sabendo que uma tia avó havia falecido. A primeira lembrança que me veio foi ela me contando que, quando eu era recém-nascido, fazia questão de ir até a casa dos meus pais para me dar banho. “Não é qualquer um que dá banho em recém-nascido”. Minha mãe me conta que ela chegava todos os dias muito cedo. Ontem vi uma foto dela me dando banho. Ontem.

Foi um ano estranho.

Você está escrevendo este texto. Você está vivo.

“Estamos Aqui”, nosso último filme, fala sobre presença. Ele será exibido hoje, dia 12/12, 19h, na sala Walter da Silveira. Dedicaremos ele ao nosso eterno amigo, João Carlos Sampaio.

Marcus

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