Notas sobre o desaparecimento e a imperfeição.

Olhar para a técnica é surpreendente para percebemos como ela é importante para a determinação das estruturas internas da obra de arte. Por meio dela, o cinema pode ser visto como resultado das transformações nas formas de representação e de se contar.

Ao passo que novos incrementos digitais surgem no mundo, novas formas de exibições também se configuram, de modo a atender as demandas de pessoas que querem construir narrativas a sua maneira. De certo, transformações na técnicas de produção possibilitam que, cada vez mais, novos realizadores lacem seu olhar através das técnicas audiovisuais.

O certo é que, ao se olhar para as manifestações contemporâneas, lançamos um olhar para sua técnica, tentando compreender o meio pelo qual ela se constitui como expressão. No curta “A praga do desaparecimento imperfeito” (2011), do cineasta Ramon Coutinho, podemos encontrar algumas referências a essas transformações.

praga 1

Nesse filme, dois amigos se veem obrigados a dar solução ao aparecimento de um misterioso corpo. O dois personagens decidem chamar um outro para solucionar o misterioso aparecimento. Como num passe de mágica, ou pela lógica assimétrica do aparelho que o visitante traz em suas mãos, o corpo desaparece da sala. É dessa estranheza sem tamanho, nesse mundo de peculiaridades especiais, que por uma inversão do destino uma câmera faz desaparecer.

O clima de inversão é reforçado pela estranha língua invocada pelos personagens: uma espécie de variação dialetal invertida. Assim como o corpo no meio de uma sala, essa língua é a chave para a construção do deslocamento temporal e espacial, o que aproxima a estória àquele gênero tradicional de narrativas orais, chamada de lendas urbanas.

Assim como os corpos, o filme é uma espécie praga, que, invertendo e contrariando, espalha imperfeitamente corpos desocupados e invisíveis por meio das salas e das ruas da cidade. A tranquilidade pelo qual os dois amigos encaram o inusitado de tudo é outro aspecto fundamental para a verossimilhança da história.

De alguma forma, o filme trata dessa dialética entre aparecer e desaparecer: o corpo que desaparece, os amigos que aparecem, os corpos que aparecem aos montes na tela, o cinema que desaparece diante da realidade, bem diante dos nossos olhos. É por meio dessa sucessão de inversões que o filme constitui sua narrativa. Sua técnica é invertida, pois o que servia para contar, não mais serve, e o que seria útil para fazer aparecer, desaparece.

Em resumo, o filme se constrói por meio das imperfeições técnicas, tanto dos personagens quanto do realizador. Se os dois personagens principais têm diante de si as maravilhas de uma fabulosa câmera, o realizador se utiliza de novos suportes para construir sua narrativa.

Dessa forma, ver o curta metragem é algo como enxergar na imperfeição uma forma de perfeição. Para tais realizações, a técnica é uma fronteira a ser alcançada e assimilada pela construção fílmica. De alguma maneira, talvez o filme queira nos afirmar que tudo que desaparece imperfeitamente, reaparece perfeitamente aos olhos dos vivos.

Por Francisco

 praga 2

Link: https://www.youtube.com/watch?v=-bHsjvMgHqc

Referência:

Walter Benjamin, no livro Magia e Técnica, Arte e Política (2012)

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