Ética Audiovisuêira para os dias velozes

O documentário é o espaço de manifestação da subjetividade e da sua articulação com a realidade. Se o documentário é, antes de tudo um gênero, para muitos, é tido como um modo de vida. Qual seria o objeto do documentário? A realidade? Se a realidade é cada vez mais complexa, ser um documentarista hoje em dia é quase uma questão de obrigação.

Existe no documentário uma dimensão ética, que faz do sujeito documentarista uma figura especial, sui generis, um sujeito em trânsito no mundo, comprimido pelas possibilidades de registros, acometidos pelas acelerações urbanas do nosso cotidiano, atravessados pelas temporalidades e espacialidades.

Para tanto cito dois documentários:

O primeiro é o documentário “Para que não nos sintamos tão sós” (2013)”, filme de Fabrício Ramos e Camele Queiroz. Nesse documentário, sujeito e objeto são construído em uma relação de simbiose, em imagens que são quase como uma percepção sensorial da experiência de “se estar”. No filme, o uso de planos fechados e do foco/desfoco criam uma relação quase que afetiva entre homem e cidade. O curta parece encontrar nessa relação entre sujeito e objeto a própria grandeza da experiência de ser documentarista nos dias de hoje: a de que o documentário passeia pelos limites de representação de uma realidade que nos é impossível perceber em sua totalidade. Quanto ao título, é quase que uma visão funcional para o documentário: para que não nos sintamos tão sós, precisamos estar em relação com a realidade que nos cerca.

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No curta “Amém” (2012), de Marcus Curvelo, também podemos encontrar essa mesma relação de simbiose. O cineasta extrapola a diferença entre sujeito e objeto construindo uma expressão bem pessoal, quase que subjetiva, investindo na construção “tátil” da experiência de se estar em uma missa, ou de se exasperar diante do falar fastidioso de um sacerdote em seu ofício. Assim como no filme de Fabrício e Camele, “Amém” (2012) parece se perguntar do papel das sensações na sua relação com o espaço e com o nosso tempo.

No curta “Amém”, o realizador investe em cortes e repetições como forma de construir a experiência quase que retórica. Por alguns segundos, podemos então ser confrontados por uma imagem de colagens de cores em amarelo, fogos e luzes, traços de uma quase evidência metafísica por parte do narrador, uma sequência que vai de encontro com a forma tradicional do filme que até então investia nos cortes e na repetição do áudio. Uma visão apoteótica da experiência religiosa? Não sei. Talvez uma percepção de que a religiosidade guarde alguma relação primaria de simplesmente se estar em movimento.

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Tanto lá quanto cá, os dois filmes afirmam o poder da câmera de transpor os ditames de representação natural do objeto. Nas palavras de Bill Nicholls, o documentário poético se revela pelo sacrifício às convenções. Sua diferença ao tradicional é perceptível na montagem dos planos não convencionais, buscando temporalidades e espacialidades específicas, expandindo os próprios conceitos do que é documentário.

No documentário poético, sujeito e objeto estão correlacionados de modo profundo, na medida em que as fronteiras estão suspensas. Nos dois filmes, as vozes perdem a identidade, não havendo uma definição clara entre quem narra e quem ouve, construindo sujeitos não personificados, sem identidade específica, mas bem localizados: um sujeito que anda pela cidade e outro que explora suas percepções em uma missa.

Sendo assim, o que podemos tirar desses dois documentários?

Talvez ambos queiram nos dizer que é da relação com o objeto que podemos visualizar um sujeito. É do objeto filmado e construído, a missa ou a cidade,que podemos fazer emergir essa figura chamada de documentarista. Um sujeito que, em suas limitações, perambula por realidades tão distantes, mas ainda assim próximas. Se pesquisar é criar um objeto, podemos dizer então que o objeto se constitui também pelo sujeito. Indo mais além, sujeito e objeto estão para si como um quadro para um pincel, uma caneta para um papel, o espectador para o ator.

O que estaria em jogo nos dois filmes é a construção dialética entre sujeito e objeto, que se constroem mutuamente. Aqui, fazer um filme e fazer um cineasta talvez seja a mesma coisa. Não existindo vice-versa no cinema, mas apenas o ato de se fazer sujeito e objeto, fazendo um filme. Assim como fazer um livro é fazer um escritor, criticar um livro ou um filme é situar-se como sujeito do discurso. Podemos então imaginar que, assim como o canto, pesquisador, cineasta e escritor criam performances. Talvez seja esse o próprio estatuto da linguagem cinematográfica, se é que ela existe: é linguagem tudo aquilo que possibilita a performance.

Por Francisco Gabriel

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Amém (2012): http://vimeo.com/50904848

Para que não nos sintamos tão sós” (2013): http://vimeo.com/63543543

Referência:

Bill Nichols, no livro Introdução ao documentário (2005).

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