A voz em Sinais de Chuva

Para Nelson Pereira dos Santos, o documentário O ditame do rude Almagesto: sinais de chuva (1976) é um dos pontos marcantes da obra do Cineasta Olney São Paulo. Em suas palavras, ao ver o curta metragem, era capaz de imaginar o cineasta baiano  usando “chapéu de couro, no raso da caatinga, conversando com os ventos, para saber de onde vêm e para onde vão”.

Bill Nichols, no livro Introdução ao documentário (2005), aponta a voz como um critério para se definir o que ele chama de “tipos de documentário”. Cada filme tem sua voz distinta, e assim como “a voz que fala”, responde por uma ideia de estilo ou “natureza própria”.

Almagesto 29

No documentário de Olney, podemos encontrar quatro tipos de vozes, que nos são apresentadas tendo em vista suas funções, são elas:  um voz em off, a voz atribuída ao três narradores que contam as técnicas utilizadas pelos moradores da região de Riachão do Jacuípe; o leterring inicial, que faz referência a obra do escritor feirense Eurico Alves Boaventura, e que é apresentada ao início do curta metragem; Uma voz apresentada na música cantada por Luis Gonzaga, música composta por Zé Dantas; e imagens da natureza que expressam uma espécie de sonoridade típica dos sertão.

Observo que pensar a oralidade no curta-metragem não é se restringir apenas à percepção da banda sonora do filme, mas perceber que, em seu conjunto de elementos, o filme expressaria uma oralidade, um modo específico de lidar com a voz e com o som.

No curta metragem O ditame de Rude Almajesto: sinais de chuva (1976), Olney busca reconstituir a memória popular sertaneja e saberes transmitidos entre gerações, contados por personagens que dispõem de inusitados métodos para se prever a chegada da chuva.

O cineasta evidencia o poder de registro que o cinema pode ter. Contudo, mais do que um registro de pesquisa, o cineasta constrói um “mosaico poético” dos desejos dos sertanejos, uma espécie de alento ante os ditames da natureza, diante dos limites dos sertanejos no jogo diário de prever o imprevisível, o confronto comum a todos de se criar por meio daquilo que se conta, de se narrar por meio de nossos dilemas e limitações.

O cineasta pensa o cinema como resultado de uma articulação entre o tradicional e o moderno, centrando sua voz nos próprios limites da arte de representar seu tempo. Nessa perspectiva, o “Almagesto”, palavra árabe para designar “O maior” e uma possível referência ao tratado astronômico de Ptolomeu, não é somente uma forma de apresentar o “rude” no ofício do sertanejo de vaticinar o tempo, mas também uma licença poética para falar do cinema como quem quisesse contar para o vento e para além dele.

Almagesto 20Almagesto 14  Link do curta-metragem: https://www.youtube.com/watch?v=7YoRZLQybg4

Escrito por Francisco.

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