Sobre a fome

Luanzito Gusmão

“Com Fome no Fim do Mundo” (Luanzito Gusmão)

Estamos desmontando o cenário de “Otto Recicla”. Eu, Bia e Luan. E mais alguém. Danilo? O Luan é o outro. Luan Gusmão. Luanzito. Luan Santana não estava no dia. Sim. Temos um Luan Santana no coletivo. Tínhamos. Ele saiu. Mas ainda é nosso amigo. Um grande abraço pra você, Luan. Então, somos eu, Bia, Luanzito e talvez Danilo. Estamos desmontando o set de “Otto Recicla”. Luanzito está presente porque alguns dos objetos de cena são dele. O computador velho. O pequeno armário do micro-ondas. Um banco. Revistas velhas. Um case de guitarra. Aí chega um cara pedindo dinheiro pra gente. Eu seguro o case de guitarra. Luanzito toca violão. Ele pergunta se a gente tem uma banda. Luanzito diz que sim. Ele pergunta o nome e Luanzito diz “Com Fome no Fim do Mundo”. “Com Fome no Fim do Mundo é um nome foda”, eu penso. Luanzito é maluco, completamente maluco, mas isso tem poesia.

Não sei se demos dinheiro pro cara. Provavelmente não. Saímos de lá. Luanzito começa a tocar violão no carro. Algo sobre a depilação de Nanda Costa para a Playboy. Ele diz que o nome da música vai ser “Com Fome no Fim do Mundo”. Eu digo “Não, cara! Vai ser o nome do nosso filme!”.  Filme que discutíamos desde o ano anterior e cujo nome ainda era “Especulação”. Um músico ferrado que vira corretor de imóveis. A idéia surgiu depois que vimos “Close Up”, do Kiarostami, em uma aula. Sim. Estudávamos juntos de novo, depois de quase vinte anos. No dia em que vimos “Close Up”, ele escreveu uma música e eu escrevi o argumento pra o filme. Eu queria usar a experiência de vida dele, músico independente e ex-corretor de imóveis, pra fazer uma coisa visceral (odeio essa palavra). E eu conhecia aquele mundo. Trabalhei cinco anos no mercado imobiliário. Duas imobiliárias e uma construtora. Na última empresa, durante minhas crises, comecei a escrever “Otto Recicla”. “Otto Recicla”, que havíamos acabado de filmar.

Então, Luanzito canta insanidades no carro e eu começo a especular sobre o sentido da fome no fim do mundo. Após chegar a conclusões estúpidas, eu cravo: “Fudeu! Vai ser o nome do filme!”. Ninguém leva a sério. Ou estão cansados demais pra se importar com um filme maluco que não tem data para acontecer. Mas ganhamos um edital (o primeiro!) e o filme aconteceu.

Essa semana, um outro amigo virou corretor. E ele também tem um filho pequeno, como o Luanzito. Mas ele não é músico. Um grande abraço pra você, Wesley. Espero que possa ver o filme. Na verdade, penso como seria engraçado se todos os meus ex-colegas de trabalho vissem. Eles questionariam o título. “Com Fome no Fim do Mundo?”. O engraçado é que sempre haviam buffets nos lançamentos imobiliários e os corretores tinham fama de esfomeados. E eu fazia aqueles vídeos terríveis pra recepcionar as construtoras. Terríveis. E tinham também os vídeos de final de ano. E as premiações dos corretores. Meu Deus.

Estamos desmontando o cenário de “Com Fome no Fim do Mundo”. O mendigo faz parte do filme. A música que Luanzito escreveu também. Daqui a um mês, o filme estará pronto. Precisamos cumprir o contrato do edital. Não terei mais chances no mercado imobiliário. Ou talvez sim. As coisas sempre mudam. Precisamos sobreviver.

Marcus

Eu (Marcus) e Pedro Garcia, em um dos sets de "Com Fome no Fim do Mundo"

Eu (Marcus) e Pedro Garcia, em um dos sets de “Com Fome no Fim do Mundo”

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