Parece fácil acreditar em condutas com sede sem um copo d´água

A fome começou na sexta-feira. Enquanto assistimos à jornada de um músico travestido de corretor de imóveis, que cruza a cidade em busca de algum sentido pra aquilo que ele faz, todos nós, do outro lado, nos perguntamos: o que fazemos nós pra dar sentido àquilo que nós fazemos?

Iniciamos mais um filme do CUAL, dessa vez, financiado pelo poder público. Esse que vos escreve pegou o bonde andando, mas os cuales estão na labuta há mais tempo. Vão fazer três anos de existência enquanto coletivo, realizando sem dinheiro ou com dinheiro próprio.

O roteiro e a direção de Marcola, vulgo Marcus Curvelo, argumento de Luan Gusmão (o corretor) e Bia Muniz (nossa fiel produtora), que, juntos com todos nós, experimentam o gosto de se foderem pra colocar os projetos e os sonhos na prática. Saindo de “Otto Recicla”, um filme denso e complexo e sem um centavo de apoio de terceiros, pra “Com fome no fim do mundo”, um filme igualmente denso e complexo, mas apoiado pelo dinheiro dos cofres públicos municipais. Colhem-se agora os frutos desse esforço e parece que tudo está convergindo pra o sucesso de todo o processo.

O resultado do filme? Esse aí, só teremos daqui a dois meses, quando ele estiver finalizado. Mas, pode-se dizer que, a cada passo, aprendemos mais e mais a fazer cinema, dentro de um sentido muito mais amplo do que nos limitarmos a ver a imagem em movimento na tela. Aprendemos com o processo, com o gosto pelo desafio e, no atual trabalho, estamos vivenciando isso, com a satisfação exposta por todos da equipe.

Entramos, hoje, no quarto dia de filmagens. Estamos fluindo e, aos poucos, vendo cada peça do quebra-cabeça ficar pronta: um olhar sobre a cidade de Salvador, cortando a capital da Bahia de norte a sul, observando o estupro imobiliário que sofre a decadente terra da alegria. É como uma vomitada sobre tudo aquilo que nos sufoca e nos oprime. Uma resposta ao deus da carnificina.

E a grande empolgação pra quem faz cinema é justamente uma daquelas coragens de encarar o desconhecido. Como vai ficar aquela cena que imaginamos no roteiro? Como vai ser a vida que imaginamos em nossos pensamentos?

Por isso, penso ou devaneio: cada um de nós está refletido naquela personagem, um músico que quer ser músico, mas vira corretor de imóveis. Na nossa realidade, quem nunca passou por isso? Deslocar seus objetivos secundários pra o lugar da sua pulsão original.

Outro dia me perguntaram: “Fazer cinema é um hobby pra você, né?”. Eu disse que não. É trabalho. Hobby não é compromisso. Hobby é “de leve”.  E, no cinema, como em qualquer outro trabalho, ficamos estressados, cansados, irritados, temos que cumprir horário, sermos profissionais, termos compromisso, passarmos por questões burocráticas… Mas todo esse estresse, cansaço, irritação e tudo mais tem um sentido, tem um porquê e é feito em prol daquilo que queremos fazer, daquilo que acreditamos, mesmo desacreditado pelos outros.

A arte contra a opressão urbana. É por aí que estamos caminhando e vivendo na pele, enquanto, pra falar desse duelo, ocupamos com câmeras, microfones, atores e realizadores o espaço da cidade pra contar uma história. Assim, continuamos a nossa jornada nos próximos dias, provavelmente até 25 de março. E quando esse processo finalizar não estaremos mais com fome, mas permaneceremos no fim do mundo, satisfeitos com o aprendizado e à espera de mais uma surtação.  

 Carlos “Baumga” Baumgarten

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