Propriedade coletiva

O desespero de escrever algo. A necessidade de assumir um discurso. A possibilidade de realizar. Foi em agosto ou setembro de 2012 que comecei a rascunhar um roteiro do modo tradicional, seguindo as premissas básicas de como escrever um bicho desses. Passei, forçadamente, pelo processo completo: ideia, argumento, storyline, perfis de personagens, ação…

Não sou bom com isso. Não entendo nada de formatação técnica de roteiro. Só sei descrever o cabeçalho e tento desenhar com as palavras as imagens. Mas não tenho muito êxito na tarefa. Pois bem, esse modo tradicional me levou a uma história que queria contar, talvez, de forma melodramática.

O conflito social entre patrão e empregada doméstica, agora, que o Brasil, finalmente, reconhece esse trabalho como um trabalho e não como um bico. Queria escrachar a classe média, na qual cresci, demonizar seus representantes, me posicionar ao lado do trabalhador oprimido e aí corri o risco de virar um demagogo.

Virei pro lado e encontrei um livro: “Os Grandes Escritos Anarquistas”. Vamos lá. Folheei e encontrei essa frase, de Joseph Proudhon: “Aquele que puser as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo”. Porra! Demais… Apesar dos contrapontos existentes entre o anarquismo e o marxismo (a lei natural e a ditadura do ploretariado) e mesmo sabendo o que a maioria das pessoas pensa sobre um anarquista, fui até Proudhon pra entender que “propriedade é um roubo”.

O que são as relações trabalhistas senão o exercício da “propriedade” sobre o outro? E isso, dentro do conceito anarquista de Proudhon, é um roubo. Ou seja, o tirano, o usurpador, é aquele que se acha no direito de restringir, limitar e deliberar de forma autoritária, seja lá o que for. Levei isso pra dentro de casa, pra dentro de uma casa, normal, de classe média, como em qualquer desses prediozinhos pré-moldados que vemos ganhar altura a cada dia que passa.

Greve. Por que não? Por que não entrar em greve? Por que não entrar em greve e ser violento? Por que não entrar em greve e ser violento, num sentido em que, agora, “tamo pau a pau e faço o que quiser da minha vida”? Não vejo Rosa como uma heroína, nem Bárbara como uma vilã. Também não vejo Arthur como coadjuvante. Eles são protagonistas de suas próprias prisões pessoais ou sociais. São apenas pessoas, seres vivos, como eu e você.

Ainda assim, achava necessário explicitar esse conflito. Um direito trabalhista negado, pensei. Tá na moda. Tá na pauta das discussões. Mas isso era pequeno diante do tamanho do buraco. Por que não? Por que não ter um coletivo pra fazer fervilhar as ideias? Por que não ter um coletivo pra fazer fervilhar as ideias e encontrar um caminho? E foi assim que cheguei a um tratamento mais decente (ou indecente, a depender do seu ponto de vista): coletivizando.

O conflito tá no todo da coisa, tá na História com “H” maiúsculo e agora também tá no papel, ou melhor, no arquivo PDF formatado pelo Celtx no PC.

Carlos “Baumga” Baumgarten 

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