A presente distância e a reciclagem

Hoje à tarde o CUAL começará a filmar mais um curta. Eu não estarei presente. Isso agustia, afinal o encontro, a correria, tudo que dá errado antes do bendito “REC”, é o que parece mais justificar todo nosso esforço de criação. A graça é gastar o tempo nisso, notando o encaixe das vontades pra coisa acontecer… Mas como fazer isso de longe? É preciso aprender. E “Otto Recicla”, de Marcus, se apropria tematicamente desse nó contra o terráqueo comum: não há tempo pra fazermos tudo que queremos. Na verdade, na maioria das vezes as pessoas não conseguem nada do que realmente gostariam.

Chico foi morar na Ilha, eu no interior, e nesses quilômetros percebemos a importância de termos começado algo. Sacamos que não há mais como voltar atrás… Aliás, nem queremos. Talvez isso garanta que aquela inocência inicial tenha passado, e que outra fase tenha chegado. Trocamos e-mails despretensiosos sobre tudo isso. Empregos x arte, estabilidade financeira x anseios, coragem x limitações. “Mudar é impossível. Ou eu fico e viro classe média, ou eu continuo cineasta.” Dessas afirmações de Chico fui percebendo o nível de transformação que havíamos aprontado pra si. Nossa inocência anterior era justamente não imaginar o quanto aquilo mexeria no nosso caldo interior. E fazer o que se quer exige mais coragem do que eu pensava quando começamos. Será que o resto do coletivo sentia isso? Possivelmente. Entre esses e-mails Chico mandava seus contos arredondados pelo tempo fora de Salvador. Sair daquela cidade parece fundamental pra podermos terminar algumas ideias, entendê-las melhor. Aquele caos alegre e devorador de Salvadolores as vezes desespera, e quero crer que a entendo melhor na lonjura .

As coisas foram acontecendo pra pré-produção de Otto, mas me incomodava por não termos nos encontrado pra discutir como a estória batia em cada um. Desencontros assim já haviam acontecido em outros filmes é verdade, mas a distância deixa tudo mais sensível e a responsabilidade de agora é outra. Enchi o saco nisso, tentando talvez reforçar ainda mais nosso modelo produtivo. Fizemos uma reunião presencial no meio dos caminhos… Em Feira decidimos nossos próximos meses e assim foi. Julho é o mês de Otto, afinal a ideia já tinha passado um ano fervilhando e ainda ficado na suplência de um edital. Fizemos outros filmes com menos atestados de ação. Ainda assim era preciso admitir que “há muita coisa (no roteiro), e se vencermos isso, poderemos fazer (quase) qualquer coisa… esteja pronto pra muita coisa não dar certo”. Disse a Marcus esperando que ele não lesse nisso algum tom pessimista.

Terminamos “Papai Noel nos Molestou” em horas de reuniões virtuais, rediscutindo cada cena na montagem e agora, sem pausa, correndo pra outro filme dar certo. Como naqueles e-mails com Chico, percebi esse “ou-vai-ou-racha”, exigindo, desafiando… Talvez, fazer cinema já valha muito por isso: perceber os riscos e depois assistir como fica.

Agora a pouco recebi umas mensagens. Parece que não vai dar pra filmar hoje.

Em seu banheiro, Otto faz força, mas parece não conseguir

defecar. Ouvimos a voz de Eva da sala.

EVA (OFF)

A gente precisa de um plano de vida.

Otto para de fazer força e relaxa.

Diz uma sequencia do último tratamento do nosso próximo curta.

Por Ramon, O distante.

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2 Respostas para “A presente distância e a reciclagem

  1. Correndo o risco…seguindo alguma direo! Massa, Ramona, um mosaico de e-mais, conversas e roteiros…tudo isso arredondado por essa distncia!

  2. Que bom que nos rodeamos para clarear os caminhos e arredondar as distâncias. Foi incrível ouvir esse texto de Bruno hoje, enquanto nossa equipe fragmentada tentava filmar mais uma cena. E continuaremos.

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