Papai Noel nos molestou – Notas sobre um processo

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Seguia apressado pela Baixa dos Sapateiros com um frango congelado dentro da mochila, um envelope amarelo amassado, procurando onde comprar três pirulitos de coração vermelho… Além dos atores, esses eram nossos objetos de cena daquele que deveria ser o último dia de gravação do curta-metragem “Papai Noel nos molestou”. Não foi. Começamos a gravar em dezembro sob o sol escaldante do verão natalino baiano. Entramos num shopping do centro pra filmar sem autorização, fugindo de seguranças, invadindo lojas, improvisando. Estruturalmente o curta deveria ser feito no esquema “golfada planificada”, ou seja, mesclando a vontade imperativa de filmar com algum planejamento que domasse nossa desorganização. Sem dinheiro, com prazer e na comunhão coletiva de sempre.

Big (Ator) no chão, deitado com o rosto colado no frango, câmera no tripé. REC? Chuva em cima de tudo! Demorei uns minutos pra aceitar que não daria pra terminar naquele dia. Perdemos o frango, relaxamos nossa ânsia finalizadora e tentamos em outra tarde. Cantei na chuva: “O processo é lento: o desapego do resultado é importante”*.

Douglas quer achar o homem que lhe molestou na infância. Sua angústia percorre e age sobre um entorno artificialmente colorido e festejante. Uma cidade que vende alegria, vestida com mais símbolos de alegria com pessoas e grupos equilibrando insatisfações. Parece que boa parte do campo criativo do coletivo vem desse choque entre personagens e rua. O íntimo drama individual exposto ao cinza normal da cidade. “Papai noel nos molestou” talvez venha dessas observações, de como cada época do ano nos apresenta superficialmente em cenários e temáticas repetidas. Nesse sentido, o natal – junto com carnaval – parece o momento mais apelativamente formatado: as mesmas músicas, signos, frangos, panetones, homens pendurados na parede do shopping instalando luzes, caixas de supermercado usando gorros vermelhos, crianças na fila pra sentar no colo do bom velhinho. Esse cenário pronto pedia subversão, bastavam personagens que pudessem tencionar esse fluxo continuo.

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No processo notamos que provavelmente seria nosso curta mais descaradamente ousado. Muitos personagens, muitas falas, continuidades, locações distantes. Tantos desdobramentos foram surgindo que pensamos em tornar aquilo um longa, mas logo parte do juízo voltou e começamos a cortar, desapegar, cortar, seguir**. Precisávamos ser mais “alguma coisa” que não tínhamos sido antes. Quando Marcus contou sobre a ideia dos Papais Noéis Fanfarrões (um argumento antigo sobre um grupo terrorista anti-natal) consegui vislumbrar um curta mais provocativo. O desafio era envergar um conflito realista prum universo narrativo mais irreverente e alegórico, apontando pro fundamental que a gente queria discutir. Contraditoriamente essa crença me deixou mais tenso em algumas gravações. Era como se as intuições urgentes – tão gastas em outras produções – não fossem dar conta daquele discurso. Essa desconfiança acabou evidenciando o comprometimentos das parcerias. Bruno, Wendel, Nayara, Hamilton deram forma aos seus personagens com tanta disposição, interesse. Do mesmo modo que Big, que elaborou um Douglas muito mais impaciente e convulso do que havia escrito. Ainda tivemos o privilégio de ter amigos figurando em sequencias chaves. Empolga perceber que o curta é, antes de tudo, o encontro desses olhares, compartilhando suas percepções tranquilamente. São essas relações que permitem que nossos pressupostos básicos de produção existam.IMG_0924

Quatro meses, três frangos, alguns pirulitos depois, quando finalmente matamos a última sequencia, restou aquela clássica dúvida de se conseguimos imprimir aquilo que esperávamos da ideia. “Papai noel nos molestou” é mais estudo que representação de um tema. Agora, em fase de montagem, vamos materializando esses e outros achismos, esperando que nossos delírios encontrem outros olhares inquietos.

 Ramon Coutinho

*Música de Bnegão e os Seletores de Frequência – “O processo é lento”. 

** Registro a dívida com a ótima ideia de Deise que não deu pra executar: Partida de xadrez entre Jesus e Papai Noel, brigando pelo domínio do natal no imaginário social.

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