Tudo o que já filmei

Tudo-Volta-Para-o-Mesmo-Lugar-7

Mais uma vez, renderizo. Meu computador velho transforma dezenas de gigabytes desordenados em um arquivo único de som e imagem. Um vídeo.

Renderizava pela primeira vez há oito anos. Não era tão quente. Pelo menos não suava tanto quanto agora.

O ventilador está funcionando mal. Ele só começa a girar depois de alguns minutos, quando sinto o vento acompanhado de um terrível cheiro de motor queimado. Já está assim há alguns dias, ou algumas semanas. Talvez um mês. Ele vai quebrar.

Na mesma época em que começava a renderizar, dormia sem ventilador e o vento que entrava pela janela me deixava gripado com frequência. Precisava fecha-la todas as noites, ou amanheceria com a garganta irritada. Há dois anos, comprei este ventilador. Atualmente, há um marasmo, um bafo de ar quente, uma espécie de estufa em que as coisas parecem estar alocadas. E o computador faz barulho enquanto renderiza. E isso me coloca aqui, agora, entre os ruídos e odores destas máquinas que, por ora, me apertam.

Outro dia, tentava refletir sobre tudo que possivelmente já renderizei na vida. E há muita coisa aqui ainda entre o limbo das câmeras e a timeline de um programa de edição qualquer. Depois que comprei minha câmera digital, no final de 2009, filmei horas e mais horas de todo tipo de imagem.

No começo, as imagens precisavam ser inseridas em algum contexto, algum registro organizado que fatalmente resultaria em um trabalho autoral. Mas a capacidade de armazenamento só aumenta e as imagens antigas vão se transformando em back up para a chegada das imagens novas.

Um dia, penso em assistir a tudo o que já filmei de uma só vez. Tudo o que já foi editado e todo o resto também, com as epilepsias causadas pelo desleixo entre o fim de uma cena e o momento em que o dedo busca o botão que faz com que tudo se apague.

Estas imagens perdidas são como rascunhos abandonados de cartas que escrevi para mim mesmo. Elas são tão reais, com todos os seus ruídos e enquadramentos ruins, que posso senti-las da mesma forma que sinto o meu ventilador velho e barulhento, lembrando-me de que só existo plenamente porque estou aqui, espremido entre engrenagens, cambaleando enquanto finjo caminhar.

Mais uma vez, renderizo. E o calor aumenta, vindo de todos os lados da memória.

Marcus

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s