“Domingo chuvoso seguido de tragédia” – Anotações borradas

Imagem

 1.

Porra, a bateria arriou. Não tem como Marcus e Horácio trazerem a câmera pra gravar a última sequencia. A mostra é quinta, hoje é terça à noite e nós não temos o tal final fantasmagórico. E ainda os lençóis brancos que faltam achar. Resta a sensação diluída de imagens irresponsáveis. Um casal em casa vê a chuva passar num domingo banal. Um filme, um vídeo, um registro, a gente naquele dia. A produção nasce com a ideia, a vontade no meio da ação e o processo no prazer, mesmo quando ainda não se sabe terminar o que se começou. Onde será que foi parar nossa planilha de produção? Pobres diabos ingênuos que nascem sem planilhas e lençóis. Mas o som, cenário, luz estavam ali, tão dispostos. Em cima da mesa a câmera começou a filmar sem intenção organizada. Eram dois seres, cada um num canto, trocando palavras, comendo macarrão. “Alho. Tem alho?”. Não temos mais vinte e poucos anos e ainda nos perguntamos o que podemos fazer com nossas imagens. Há horas que não se pode controlá-las. Não consegui terminar o projeto do tal edital, mas dá pra fazer de outro jeito. Nos dias que exigem gravação o improviso vira disposição. Luz natural, cinzenta, cor de pele, granulada. Tem um ponto embaralhado em que as ideias se escondem pra surgirem só quando todo planejado cai por terra. Trânsito, trabalho, dor de barriga, contas pra pagar, prazos pra cumprir. Terminei de editar o miolo do filme. Enquanto isso o carro ainda está parado e não dá pra trazer a câmera a essa hora da noite aqui.

2.

A cena ficou bonita, mesmo com uma outra câmera. O contraste se impôs e a estória aconteceu. Início, meio e delírio no fim. Fico buscando entender como minhas referências se misturam com meu material bruto. Essa mescla ainda é muito orgânica, ingênua até. Será que vai convencer alguém? Hoje vamos exibir só uns filmes não convincentes. Nasceram de oportunidades simples, honestas. Conheci um cara que comprava ótimas câmeras, sempre acompanhando as novidades do mercado. Ele nos mostrava as diferenças entre elas, as lentes, o foco de noite, meio-dia. A bateria do carro dele parecia nunca ter arriado. Sempre pedimos pra ele editar alguma coisa, mostrar, exibir, mas ele sempre enrolou. Ideias que nunca ficaram suficientemente visíveis. Talvez seja a busca por um preciosismo qualquer, enquanto que os momentos preciosos vão passando.

Acabo gostando do jeito que as cenas se sobrepõem, de algumas elipses, diálogos. Existe um lirismo no cotidiano difícil de captar. Aí encontrei um sentido pra o curta existir, mesmo com seus desacertos. Queria fazer uma investigação estranha sobre o inesperado, daquilo que acontece antes de uma mudança intensa. Como é difícil sentir a cidade, mesmo estando tão dentro dela. O conforto da casa contra a externa vulnerabilidade do acaso. Pra que explicar? No fim, somos todos vítimas tentando não lembrar que somos.

3.

Até que algumas pessoas desconhecidas foram. Pensei que só ia dar a gente com nossa cara dura. Três curtas e um debate que pareceu justificar essas correrias. Trânsito abafado, falta de dinheiro, contas pra pagar, prazos pra cumprir e um monte de outros planos pra acreditar. Não convencemos, nem a nós mesmos. Melhor assim. Agora mesmo chove e não vou fechar a janela.

RamonCoutinho

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