Do lado da presença

Diante das luzes perdidas de uma cidade ainda mais perdida, uma câmera buliçosa busca personagens que indiquem o sentido do “agora”, do “estar”. A necessidade de Marcus Curvelo em garimpar presenças é tão intensa que ele acaba se tornando mais que diretor, mas também personagem de “Não estou aqui”, curta feito por vozes noturnas, rostos cercados de uma sombra desfocada, elementos que compõem uma poesia embriagada e melancólica de jovens que – como qualquer um – precisam romper o vazio que os cerca.

Se o tal diretor não fosse um amigo e colega da labuta super independente do cinema nessa terra da alegria, eu continuaria esse texto tentando fazê-lo parecer uma crítica, mas longe dessa suspeitosa ousadia, eu prefiro dizer que “Não estou aqui” é um ponto de consciência e protesto. Antes de mostrar o curta por aí, Curvelus nos perguntou se deveria deixar a simpática marca do “CUAL” no filme, acreditando talvez que se tratava de uma coisa bastante pessoal pra enquadrar nos moldes que estamos acostumados a processar e terminar nossos curtas. Se sentirmos o que é mostrado ali, o que é dito, notamos que é algo maior que o próprio Marcus, que nós mesmos… Ideias e frases inacabadas tentando dar conta de um questionamento que põe o dedo em tudo que ainda não fizemos pra sermos o que queremos ser. Não devemos viver o arrependimento de não termos feito as coisas mais geniais e ingênuas em um curto período de nossas vidas que parece conter o ápice da coragem. Fico pensando no que tem sido feito pra essas mudanças. Vi esse filme contabilizando tais ações.

Encontrar gente já é um passo e tanto, crescer e andar com elas é ainda mais incrível. Acreditamos num cinema pouco estimulado, que pretende expansões, que vá além do ver, que creia que mesmo em um pântano há espaço pra luz. As tantas dificuldades, mais que desencorajar, acabaram exigindo o suficiente pra largarmos as reclamações de lado, e em menos de um ano de CUAL realizar uma dezena de curtas, vídeos e roteiros. Mais que os resultados, vivemos os processos, os instantes das ideias, as risadas. Se pensássemos em dinheiro e estabilidade certamente guardaríamos nossas câmeras pra quem sabe uma viagem de férias, uma festa de aniversário. Mas as câmeras não existem apenas pra registrar os bons momentos ou o melhor sorriso emplacado na rede social do momento. Se não nos encontrarmos (nem em nós mesmos) de que nos servirá essa tal tecnologia e virtualidade que vendem tão bem por aí? O filme de Marcus vai além de uma mera crise existencial, é sobre a exigência do encontro. É uma convocação.

O ciclo natural de auto reconhecimento parece aos poucos dar espaço para o avanço com consciência pra outros lados, outros cantos, outros personagens, sem deixar de falar de si. Ultimamente sentimos a aproximação de tantas pessoas que buscam a mesma coisa, mesmo nas mais diferentes áreas. Essa é uma recompensa maior que os prêmios que não ganhamos. Sair de uma universidade pública em uma primeira turma diplomada em cinema e audiovisual é louvável, mas ainda muito pouco. Gostaríamos de fazer parte de um movimento audacioso, comprometido com seu momento e impulsionado por pessoas interessadas em intervir nas coisas, assumindo seus riscos e prazeres. Espero que essa irredutível presença continue exigindo mais, afinal as noites são longas e estamos aqui, juntos.


ramon

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4 Respostas para “Do lado da presença

  1. Estava inseguro com ele. Achava mesmo que era pessoal demais. Mas, andei revendo e refletindo. Agora, com o seu texto, percebo que ele não existiria sem o CUAL. Sem esse compartilhamento do que estamos sentido. O impulso de pegar uma câmera e procurar captar algo que desse sentido para o agora. Fazer um filme em duas noites e editá-lo em algumas horas, de virote, mesmo sem prazo de entrega. Na verdade existe prazo. Essa necessidade de estar, filmar, parte do nosso principio de urgência. É uma convocação, como você diz. E acho que o título é mesmo uma provocação para a resposta que você tem dado: Não estou aqui. Estamos aqui.

  2. Cinema manifesto. Cinema manifestado. Fiquei muito emocionado com o curta. Quando Marcus falou do filme não achei que seria assim. O seu filme dá uma idéia de "agora", de que algo deve ser feito custe o que custar. O filme me fez pensar que a vida, assim como o cinema, é um caminho sem volta.

  3. Cara.Acabei de ver o vídeo.Todo questionamento que a gente faz o tempo todo sobre o que a gente quer e o que a gente faz pra conseguir, sobre a errância, o passar rente do que a gente quer…tudo me veio tão rápido e tão forte com esse filme.esses rostos-de-qualquer-um não trazem necessariamente respostas, nem conclusões à respeito da vida. só reticências. reticências de um pensamento que não têm concluído e completo. e talvez nem se queira concluir. talvez exista até o medo de conclui-lo, de responder o que a gente tá fazendo aqui. A GENTE.isso é cinema. isso é cual.achar rostos, histórias, crescer as reticências em nossas mentes, ao mesmo tempo em que cria essa vontade imensa de romper, de passar do estado de querer pro estado de contar que fez.Emocionante.Parabéns a todos nós.

  4. Ficou orgânico! No processo de cada persona, suas histórias confundem com a de um todo! Um tanto nostálgico, para quem se agrada deste sentimento notório, se delicia em suas sensações!

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