Fake-me / O Homem Caixa


Ian Fraguas (Fake-me)

Eu era criança. Ok, não era tão criança assim. Adolescente. Aula de artes. Todos deveriam comprar telas e pintar. Eu não sabia pintar, mas eu tinha pincel, tinta e tela. Eu poderia fazer qualquer coisa e foi isso que eu fiz. O resultado foi horroroso. Eu trouxe para casa e minha mãe colocou na parede da sala. Algumas pessoas achavam engraçado, mas isso sempre foi significativo para mim. Se eu tiver tela, pincel e tinta, significa que eu posso pintar, mas significa que eu deva pintar? E o que eu pintar será exposto na sala por minha mãe, independente da beleza? Se eu tenho meios para me expressar, significa que eu deva me expressar? Se eu tenho uma câmera e o Youtube, significa que eu deva fazer filmes? Há alguns anos eu não teria a possibilidade de estar fazendo isso. Estar escrevendo em um blog que pudesse ser acessado por qualquer pessoa com uma conexão à internet. Apenas pessoas intelectualmente validadas produziam material acessível para um grande público. Chegamos ao ponto em que pessoas sem validação produzem coisas. Isso gera expectativa. Buscamos o improvável e tornamo-nos Fakes de nós mesmos com quadros horrorosos pendurados pelas nossas mães na melhor parede da sala.

Isso me levou a escrever dois roteiros. O primeiro chamava-se “O Homem Caixa”. Tratava-se de uma caixa que queria ser um homem, enquanto todas as suas amigas caixas estavam felizes sendo caixas. Preciso salientar que além de tudo que estava acontecendo, estava bastante influenciado por um média metragem do Michel Gondry, chamado “Interior Design”. O filme faz parte do Longa “Tokyo!”, que ainda conta com médias do Bong Joon-Ho e Leos Carax. A personagem de Gondry, namoradinha de um cineasta iniciante, não acha seu lugar e acaba transformando-se em uma cadeira. Uma cadeira feliz. É talvez a anti-personificação. Ou não. A verdade é que “O Homem Caixa” não vingou. Não tinha meio, nem final. Talvez nem começo. Veio, então, o “Fake-me”. Um cara que fazia sucesso com um perfil fake na internet e resolvia transformar-se nesse “personagem” na vida real. Daí nasceriam conflitos com as pessoas que conviviam com ele, que não aceitariam a mudança. Um fake de verdade. A primeira versão do roteiro era didática e comum. Basicamente a descrição dos acontecimentos. Ele escrevia coisas engraçadas no twitter e tentaria virar um comediante. Se apresentar fazendo stand up. Posso dizer que o roteiro veio amadurecendo desde maio, mas só ganhou força quando decidi juntar as duas estórias. Mas não foi só isso. Devo aos CUAIS (membros do CUAL), que foram sinceros o suficiente para me dizer que o roteiro ainda não estava pronto, mesmo quando estava apresentando o 5º tratamento. Vejo agora que esse “desgaste” foi fundamental para o personagem e para o rumo que ele toma na estória. Não acho que deva escancarar a natureza da última versão do roteiro, pronta em agosto, mas talvez hajam pistas ao longo do texto. O roteiro de “Fake-me”, em sua versão definitiva, fala sobre um homem que decide iniciar carreira artística após largar o emprego, enquanto tudo é registrado através de um documentário que ele tenta transformar em ficção. É o cara que tem tela, pincel, tinta e verdadeiramente acredita que sabe pintar. O filme começa exatamente no momento em que ele resolve apostar em si mesmo.

Gostei muito do que filmamos. Acredito que é a primeira vez que não acho que filmei um monte de porcaria e que vou tentar resolver na edição. E Ian Fraguas, que praticamente está em um monólogo, foi tão bem que eu não consigo imaginar qualquer outra pessoa em seu lugar. Ficamos todos impressionados. Minha vontade era de abraça-lo ao fim de cada take. Eu fiz isso algumas vezes. Agora vamos montar o filme. Quero manter a tradição CUAL e acabar em pouco tempo. E esperamos que as pessoas gostem, também. Certamente, nossas mães gostarão.

Marcus

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