Da procura ao processo – “Procura-se um quase cineasta”

Tinha acabado de terminar o curso de roteiro da EICTv quando os primeiros lampejos de “Procura-se um quase cineasta” começaram a chegar em mim, sempre entre a lucidez e a embriaguez do sono nas madrugadas quentes de Havana. Depois de dar um primeiro formato ao roteiro que havia produzido na Escuela – “Eu sabia que você não conseguiria colocar o silêncio pra dentro” – um incômodo começou a crescer justamente pelo fato de ter extrapolado os limites das ideias e imagens, tendo em mãos uma coisa muito distante de uma produção mais imediata, próximas das reais condições que dispunha. Diante desse roteiro-impasse – ousado demais pro momento – me restou a vontade imperativa de escrever algo filmável, possível logo quando retornasse.Foi dessa necessidade toda que surgiu o título provisório de algo que deveria virar uma história sobre a busca, tentativa, sobre o perigo e a dádiva do cinema : “um quase cineasta”. A força aproximada do “quase” junto do “cineasta” – palavra extremamente glamorizada por seu falível status artístico – foi o princípio de uma metalinguística provocação. Provocação que deveria servir primeiro ao próprio umbigo, pros colegas mais próximos com objetivos e ideais parecidos, compartilhados com a angustia de projetar um futuro no audiovisual em meio a um habitat hostil.

Sempre pensei sobre o “quase fazer artístico”, como se a maioria das pessoas ligadas a criação tivessem um gênio dentro da cabeça que ocasionalmente fazia brilhar aquela bela lâmpada sobre a cabeça… E o maior problema não é essa ilusão inspiratória que muitas pessoas têm, mas de como o que fica muitas vezes é apenas lâmpada-ideia, sem nunca sair desse estágio, apagando aos poucos. Mexer e brincar com o fetiche cinematográfico parecia ideal pro momento, tentando inverter suas convenções e vaidades paralizantes. Daí, quem sabe, promover questionamentos (básicos) para nossa formação inicial: Qual nossa função mesmo? Para onde nossa câmera e cortes vão apontar? Fazer cinema na Bahia?  Sim.

Faz tempo que obras inacabadas me instigam, talvez pela mais tola curiosidade ou quem sabe por crer que entre o início e o término de toda obra há uma beleza ocultada. Uma série de filmes trabalhavam tão bem essas angústias do incompleto que surtiram um forte efeito referencial: do documentário de Sergio Machado “Onde a terra acaba” ao clássico de Felinni “Oito e meio”, a incrível precisão de “O inferno de Clouzot” e a genialidade dolorosa de “Sinedoque Nova York”, entre outros que me invadiram não apenas por seus méritos, mas por me sentir tão reconhecido neles em diferentes proporções. Não foi difícil enxergar no falso documentário (principalmente depois de ver Recife Frio, filme de Kleber Mendonça Filho) uma solução criativa para alguns problemas de produção, usando as “cabeças-falantes” pra costurar a narrativa junto as imagens feitas pelo próprio personagem. O roteiro tinha duas páginas e algumas indicações como “personagem ranzinza”, “não conter o improviso aqui”, etc. Roteiro que só pareceu mais confiável depois que a mínima equipe foi formada com Francisco Gabriel e Joelma Gonzaga, que se entregaram a proposta a um ponto que era impossível distinguir o diretor – éramos todos. As discussões sobre o filme, suas pretensões e razões de existir nos empolgaram até o último momento, principalmente depois que Joelma nos apresentou o Ator perfeito para o personagem desaparecido: Matias Maldonado que com sua maturidade nos ensinou e roubou a câmera desde a primeira cena que ele apareceu. Importante citar a contribuição de Danilo Canguçu, Carlos Vin Lopes,  e  todos que cederam tão getilmente seu tempo e sorriso para nos ajudar.

Hoje depois de remontar o filme percebo com mais clareza nossas deficiências e virtudes, acreditando que o melhor foi formar uma coletividade comprometida com seu processo, sua procura e ação, afinal é disso que é feito o cinema no qual (Cual) acreditamos e por isso – para além do quase – o fizemos.

Ramon Coutinho

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Uma resposta para “Da procura ao processo – “Procura-se um quase cineasta”

  1. Quase cineastas. Quase artistas. Quase vivos. Existimos no quase. O personagem de Matias é um tapa na cara, velho. O processo estende-se e toma conta do produto final. É a vida.

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